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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Carnaval: Percussão baiana foi da religião para a festa e acabou virando escola

Neste ano, a linguagem universal dos tambores ganhará ainda mais voz no Carnaval de Salvador. A percussão foi escolhida como tema da folia momesca, e os mestres e percussionistas da Bahia estarão no centro dos holofotes.

Dos templos budistas aos atabaques das religiões de matriz africana, a percussão se fez presente. Na capital baiana, a genialidade dos mestres criou até escolas diferenciadas, conhecidas como “a batida do Olodum” ou “o toque do Ilê Aiyê”.

A linguagem percussiva popular durante muito tempo foi transmitida de mestres para discípulos por meio da observação e audição. Foi dessa maneira que muitos percussionistas reconhecidos internacionalmente aprenderam e continuam a repassar os seus conhecimentos.

É o caso de Memeu, mestre de percussão do Olodum, que aprendeu os elementos e as bases rítmicas com Neguinho do Samba, o inventor do samba-reggae e fundador da Banda Didá, que faleceu em 2009.

Ex-integrante da Banda Mirim – trabalho social realizado há 27 anos pelo Olodum – e desde 1996 no comando da ala percussiva, formada por 100 percussionistas durante o Carnaval, mestre Memeu conta que aprendeu os ensinamentos do samba-reggae, ritmo-base do grupo, por meio da sensibilização, percepção e prática musical. “No meu tempo não tinha partitura. Tínhamos que memorizar as batidas, distingui-las e daí sair para a rua e pôr em prática tudo o que ouvíamos”, relata Memeu.

As noções de leitura rítmica e de dinâmica eram aprendidas sem nenhuma base teórica, mas nem por isso a percussão deixou de possuir recursos e riquezas com características próprias. “A percussão está na música baiana em geral, e não só no Carnaval. Ela é a base, dá o ritmo da música baiana. É muito importante o reconhecimento dessa linguagem”, ressalta o coordenador do Núcleo de Percussão da Ufba, Jorge Sacramento.

Mulheres - Outra discípula de Neguinho do Samba é a maestrina da Banda Didá, Adriana Portela, primeira mulher a conduzir uma ala de percussão na Bahia. Desde 1993, Adriana comanda 80 mulheres durante o Carnaval.

Ela ressalta que foi a percussão que lhe permitiu reconhecer e reafirmar a sua identidade negra. “O que me permite conduzir mulheres é a possibilidade de reverter o quadro das meninas que até então não tinham despertado o interesse pela música. Me sinto privilegiada”, diz a maestrina. A Didá é formada exclusivamente por mulheres, que tocam diversos instrumentos. 

Fonte: A Tarde