Maragojipe canta seus filhos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Maragogipe tem carnaval mais fantasiado da Bahia

Mary Weintein – Agência A Tarde


O carnaval em Maragogipe é bem organizado mas sem que o poder público imponha limites à espontaneidade das pessoas que querem se divertir. Cerca de 80 % da população sai às ruas ou coloca cadeiras na porta de casa para apreciar a festa. E a grande maioria sai vestida de careta. É uma profusão de vestimentas criativas, inventadas pelos próprios foliões. O Largo da Matriz é o de maior concentração. É onde está armado o grande palco. Um outro que também atrai multidão é o do Cais do Cajá. Numa praça contígua ao Largo da Matriz, a Conselheiro Antônio Rebouças, conhecida como “dos Mascarados”, durante o Carnaval, acontece o concurso de fantasias de adultos e crianças. Ali, os concorrentes se apresentam sem inibição, dando tchauzinho e jogando beijos para a plateia que invariavelmente aplaude.

O Carnaval de Maragogipe tem muita música e fantasia, mas não há atrações de estrelas renomadas, o que faz com que o próprio folião seja o ator principal da festa. Embora a prefeitura tenha investido na organização do evento, com sinalização, folhetos, palcos e bandas, o maior atrativo é o próprio morador da cidade que tem a maior concentração de caretas e fantasiados do Estado. Por isso, em 2009, o carnaval de Maragogipe foi registrado como patrimônio imaterial da Bahia.

Voz distorcida, luvas e meias. Vale tudo para se disfarçar e chamar a atenção anonimamente. A maioria dos foliões sai incógnita às ruas, sempre pulando, mexendo com outros mascarados e tirando fotos com turistas. A predominância é a de caretas como as que saiam em Salvador até os anos 1970, quando foram proibidas. Brincar o carnaval sem ser reconhecido é fundamental mesmo para os que investem alto na fantasia. Denise, Nora, Viviane, Rita, Luane, Vivien, Xanda, Taís e Vera estavam de mosqueteiras. Com uma espada na cintura, vestiam-se com uma meia calça por dentro, e uma meia arrastão rosa por fora, um short rosa choque por baixo do saiote, colete preto, peruca, chapéu de palha forrado com o cetim do vestido e luvas pretas. Além de tudo isso, mantinham a máscara. Cada uma delas gastou R$350 pagando a fantasia confeccionada por uma costureira local.

O carnaval de Maragogipe é de brincadeira levada a sério com fantasias muito produzidas. Ivana da Silva Andrade, 10 anos, dançava na Praça, vestida em uma odalisca vermelha, desde as 14h30. Aos 10 anos, tocava pandeiro, tinha pulseiras e uma espécie de véu. Em Maragogipe, os pais produzem as crianças já que não podem eles mesmo cair na folia porque têm que tomar conta delas. Ada Júlia, oito meses, estava de Minnie.

“Fiquei colocando e tirando a máscara para treinar ela para não ter medo”, disse o pai Raimundo Guedes, 24 anos. Olívio Bahia, 40 anos, oficial militar, saiu de toureiro. “Achei o modelo na internet. É criação do nosso estilista Eliezer”, brincou. Maria das Graças Nunes disse que pagou R$10 pela máscara de careta e mais R$10 a uma costureira para fazer o seu pierrot amarelo e preto. Dica Nascimento, em sua Kombi elétrica, com seus auto-falantes à moda antiga, é o mais tradicional puxador de trio elétrico de Maragogipe. Há 55 anos o Maragós percorre as principais ruas da cidade com um som que lembra o de Dodo e Osmar. “Aprendi muito com eles”, avisa Dica Nascimento. Pelo porte da Kombi, consegue passar pelas vias mais estreitas. Um outro concorrente a veículo mais animado é o jegue elétrico também muito seguido pelas caretas.

No último dia de carnaval, Maragogipe foi de total animação e recebeu visitantes ilustres como o ex-presidente da Petrobras, acompanhado por ex-colegas, e o secretário de Cultura do Estado. Ambos estavam animados, achando que o carnaval de Maragogipe merece ter maior visibilidade. “Estou achando extraordinário. Mas não pode ficar pequeno. Tem que crescer. Precisa mostrar essa espontaneidade de forma mais ampla. Não pode explodir, não é para virar um point, mas precisa crescer”, disse José Sérgio Gabrielli. Albino Rubim, que conheceu a folia maragogipana há dois anos, disse que foi durante a sua presidência do Conselho de Cultura, que o Carnaval passou a ser patrimônio. “Ganhou maior visibilidade, tem mais apoio. Não teria sentido aprovar como patrimônio e não ter maior ajuda. O registro foi um incentivo”, disse Albino Rubim.