Maragojipe canta seus filhos

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Conflito político enfraquece organização do carnaval de Maragojipe

A praça dos mascarados reuniu a tradição do carnaval das marchinhas.
População sentiu falta do concurso de mascarados. Foto: Lorena Morais/RecôncavoOnline
por Lorena Morais (Recôncavo Online)

De 9 à 12 de fevereiro, foliões e turistas celebraram o carnaval de Maragojipe, que é marcado pela forte tradição dos carnavais de rua, com presença de mascarados, caretas, fantasias diversas e orquestras carnavalescas. Como o tema “Aqui é o povo que faz”, a festa foi organizada pela Associação de Músicos de Maragojipe – AMMA e a Prefeitura Municipal.

Após rumores de que o carnaval não seria realizado, a festa aconteceu com um desfile de fantasias feito pelo povo e uma programação cultural em dois palcos distintos. O professor e historiador Zevaldo Sousa sentiu falta do concurso de fantasias neste ano. “Faltou o concurso de mascarados, de marchinhas, de rei momo, rainha e princesas. Pois para mim Carnaval é simplicidade, não ligo para bandas famosas”, diz.

A não realização do concurso pode ter sido resultado do conflito político que acabou atrapalhando na organização da festa. Com o intuito de captar recursos para o carnaval da cidade, a AMMA e parceiros enviaram ao Governo do Estado um projeto desde o ano passado e através da aprovação, a instituição conseguiu sozinha arrecadar cerca de 500 mil reais em investimentos.

No início dos festejos momescos, mascarados reivindicavam a implantação do ‘Museu do Carnaval’ na cidade. Foto: Luiz Carlos Brasileiro/Acervo Pessoal
Na tentativa de dialogar com a prefeitura local, conflitos políticos entre a nova gestão e aliados da gestão passada – que foram responsáveis pelo envio do projeto ao Estado – fez com que o caso fosse parar no Ministério Público, como afirmou Luiz Carlos Brasileiro, ex-secretário de Cultura e Turismo da cidade e parceiro da AMMA. De acordo com Brasileiro, a prefeitura queria ser a responsável pelo recurso que foi destinado a AMMA para a realização do carnaval. O pedido veio seguido de ameaças de não liberação dos espaços.

Quem foi à cidade, conferiu que os outdoors de anúncio da festa foram retirados. Testemunhas também afirmam que o bloco de rua do ex-prefeito foi impedido de seguir o percurso no centro da cidade.

Com intervenção da promotoria pública, o caso foi acompanhado pela justiça e os conflitos foram apaziguados, fazendo com que a festa acontecesse. A AMMA ainda destinou parte dos recursos à prefeitura, para a infraestrutura da festa, que também conseguiu investimentos de uma cervejaria.

A equipe do Recôncavo Online entrou em contato com a prefeitura de Maragojipe mas não obteve retorno até a publicação dessa matéria.

Manutenção do carnaval
De acordo com o secretário de Cultura do Estado, Albino Rubim, que ressaltou o reconhecimento do carnaval de Maragojipe como Patrimônio Imaterial, destacou que é obrigação da secretaria e do Conselho Estadual de Cultura ajudar na manutenção do carnaval. “Nós trabalhamos e apoiamos o carnaval de Maragojipe independente de quem esteja na prefeitura. Surgiram em determinados momentos algumas dificuldades entre grupos que apoiam o evento e a prefeitura onde tivemos que entrar no meio para tentar conciliar isso”, diz o secretário.

O secretário de Cultura do Estado destaca que o papel da Secult e Conselho de Cultura, é apoiar na manutenção da tradição do carnaval. Foto: Ernesto Falcón/RecôncavoOnline
Ele contou também que a intenção da secretaria é apoiar a singularidade e importância do carnaval de Maragojipe. “Depois de muita conversa, conseguimos entrar em um acordo e repassar o recurso que foi o mesmo do ano passado. Não vamos dar dinheiro para colocar, por exemplo, trio elétrico. Nós repassamos o recurso para apoiar o desfile de máscaras e manter sua tradição. Espero que tenha sido satisfatório”, destacou o secretário.

O recurso, que veio através do programa Outros Carnavais, da Secretaria de Cultura do Estado foi destinado a ações para preservação do Carnaval como patrimônio cultural (apresentações de grupos culturais, orquestras, exposições, valorização dos artesãos, entre outros). “O carnaval não deve ser só responsabilidade do poder público, mas a comunidade tem que se apossar”, ressalta Brasileiro, que foi um dos idealizadores do projeto.

Com o registro do carnaval como Patrimônio Imaterial da Bahia, essas ações são obrigatórias para o Plano de Salvaguarda do Carnaval de Maragojipe. No sábado (09), mascarados exigiram também através de uma manifestação de rua a implantação do Museu do Carnaval, espaço destinado para salvaguardar os elementos que compõem o inventário da festa secular.

Turismo e Patrimônio Cultural
O estudante Erick apresentou resultados de sua pesquisa sobre a percepção da população após o registro da festa. Foto: Carlos Gomes/Acervo Pessoal
O estudante de Geografia, Erick Conceição, 21, realizou uma pesquisa orientada pelo professor Jânio Roque Barros de Castro (UNEB), em que ele analisa a percepção do morador após o registro do carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial. Ele apresentou os resultados durante a Mesa Redonda sobre a História do Carnaval de Maragojipe, realizado no domingo, 10 de fevereiro.

Como uma abordagem geográfica, Erick entrevistou moradores locais e colheu resultados através de análises dos depoimentos. “Alguns moradores locais viram com ‘bons olhos’ esse registro, mas ao mesmo tempo eles ficavam receosos com as modificações que esse registro poderia trazer para a festividade local”, explica o estudante. Entre essas modificações estão o receio da perda da originalidade do carnaval.

Erick também observou que muitos moradores acreditam que o registro iria possibilitar uma forma de obtenção de renda, com a vinda de mais turistas. “A festa passou a ser uma coisa do Estado. Houve uma maior divulgação da festividade e isso fez com que vários turistas viessem conhecer o carnaval. A presença de turistas hoje [após o registro] é muito maior”, conta.

A turista soteropolitana Evanyr Rodrigues, 64, diz que mesmo após o registro do carnaval, que deu visibilidade maior à cidade, o receptivo turístico ainda precisa melhorar muito. Pela primeira vez na cidade, ela diz que os serviços são caros e de má qualidade. “Eu achei o valor da hospedagem caro. Não existe conforto e a cidade precisa de pessoas capacitadas. O gestor tem que se atentar. O pessoal ligado a esses serviços precisam deste suporte”, critica a turista.

Dentre as recomendações para o plano de salvaguarda do carnaval, estão a parceria entre as Secretarias Municipais e as de Meio Ambiente e Turismo do Governo do Estado, para exploração do potencial turístico e também a criação de um espaço para reunir um inventário do carnaval na cidade.

Lorena Morais
Colaboração de Ernesto Falcón