Maragojipe canta seus filhos

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Foliões, artesãos e músicos ajudam a manter a tradição cultural do Carnaval de Maragojipe

Por Lorena Morais (Recôncavo Online)

Durante os dias da folia momesca, quem foi à Maragojipe conferiu o banho de cores e criatividade que tomou conta das ruas. Um verdadeiro desfile de mascarados, caretas, fantasias e blocos de rua que demonstra a tradição da festa profana mais antiga que se tem registro.

É um espaço em que todos se vestem e brincam nas ruas. Com vozes afinadas, os foliões se escondem atrás das máscaras e garantem a diversão. Com todo luxo e requinte das fantasias ou com toda a simplicidade, a ideia é não ser reconhecido.

As caretas, também conhecidos como pierrot, fazem parte da
tradição cultural do carnaval de Maragojipe.
Foto: Lorena Morais/RecôncavoOnline
“No dia em que em que tiraram a minha máscara, fiquei morrendo de vergonha de voltar para casa. Como iria andar pelas ruas com minha cara limpa? Depois daquele dia eu nunca mais brinquei o carnaval”, relembra a maragojipana de prenome Zenita, 70, em uma conversa informal. Ela contou que certa feita, em um carnaval, alguém tirou sua máscara. Depois disso, a festa para ela acabou, pois todo mundo descobriria que ela estava por trás da fantasia. Como o momento era para extravasar, com a máscara todo o tipo de brincadeira é válida, mas ninguém pode saber quem é.

“O uso das máscaras começou a partir do século XIX, quando no momento da festa de entrudo, negros começaram a utilizar um pano branco e máscaras para se mesclar com os brancos e serem aceitos. A festa era um momento de democracia e representava um dos pontos mais marcantes no carnaval”, explica o professor e historiador Zevaldo Sousa, ao falar sobre a memória do carnaval de Maragojipe. Entrudo é uma comemoração carnavalesca oriunda dos portugueses, que foi adaptada para o carnaval no Brasil.

As fantasias
E para que essas fantasias tomem conta das ruas da cidade, existem pessoas que ajudam a construir esta tradição. Artesãos locais produzem as famosas “máscaras de Veneza”, que são confeccionadas com papel machê e pintadas à mão. E também tem as caretas ou pierrot, que ganham forma nas mãos de costureiras que se dedicam a produzir um dos personagens mais simbólicos do carnaval, com chifres e nariz pontudo.

A costureira Márcia (janela) e o grupo de mascarados.
Ela costurou todas as fantasias.
Foto: Lorena Morais/RecôncavoOnline
Márcia Cristina Rangel, 53, é considerada a costureira mais rápida de Maragojipe. Só neste carnaval produziu cerca de 80 peças, entre fantasias e caretas. Isso tudo em apenas duas semanas. “Eu só faço por encomenda e as pessoas deixam para pedir em cima da hora. Comecei a fazer as peças no final do mês de janeiro para o início de fevereiro e já entreguei todas”, conta Márcia.

Ela fez cerca de 30 fantasias de careta, além de confeccionar roupas de mascarados e fantasias diversas para adultos e crianças. Fui visitá-la no domingo de carnaval, 10 de fevereiro, com a esperança de encontrá-la costurando, mas ela disse que todas as fantasias estavam prontas e na rua. No momento de nossa conversa, um grupo de sete mascarados foi visitá-la. Sozinha Márcia confeccionou todas as roupas.

Além de costurar, ela também não abre mão do seu carnaval. Prepara sua fantasia e sai para brincar. Somente este ano ela decidiu não sair, por questões ligadas à saúde. “Sempre saio no carnaval fantasiada. Adoro essa festa, porque acompanho desde criança”, relembra. No seu acervo de fotografias, ela demonstrada o orgulho e prazer em ver suas criações na rua.

Blocos de rua
Caminhando pelas ruas da cidade, encontro um animado bloco de rua, formado por cerca 40 homens entre jovens e principalmente da terceira idade. É o Bloco Popular de Maragojipe – BPM. Mais conhecido como “Bloco do Pau Mole”, é o que contou Nelson Guerreiro, 64, integrante do bloco. Ele disse que os integrantes se reúnem no Carnaval de Maragojipe há mais de 20 anos e tocam animadas marchinhas carnavalescas pelas ruas da cidade. Com uma indumentária própria, são eles que mantém esta tradição. “O bloco começou com apenas três integrantes e hoje temos cerca de 40. Nos reunimos e corremos a cidade todos os domingos e terças-feiras de carnaval”, conta Bartolomeu Machado, 70, integrante do bloco.

Durante o percurso eles visitam as casas dos foliões que solicitam a presença deles. Nesta visita ganham bebidas e alimentação. Os integrantes do bloco são todos homens e eles próprios sentenciam: mulheres são proibidas!

O ‘Bloco do Pau Mole’, como é conhecido,
percorre as ruas da cidade cantando músicas carnavalescas.
Foto: Lorena Morais/RecôncavOnline
Com o cortejo eles revivem os carnavais de época e ajudam a manter a tradição da folia momesca na cidade.

O Carnaval de Maragojipe é registrado como Patrimônio Imaterial da Bahia pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC. Com o tema “Aqui é o povo quem faz”, a festa existe há mais de um século e possui forte riqueza cultural através de grupos de mascarados, das orquestras e das suas manifestações espontâneas.

Lorena Morais